Pertencimento - por que valorizamos tanto em determinadas situacoes?

Que Carnaval, Oscar e Bad Bunny tem em comum?

2/9/20263 min read

Nunca se falou tanto sobre um orgulho de ser brasileiro e latino como nesse moemento. Eventos como torcida de filmes brasileiros no Oscar, valorizacao do pais entre artistas e midia estrangeira nos faz pensar que ser brasileiro é motivo de orgulho, nao de vergonha. Em uma esfera um pouco mais ampla, ser latino virou especial, principalmente ao boom de artistas associados aa musica, como o sucesso estrondoso do porto-riquenho Bad Bunny, musico mais ouvido em 2025 e sua impactante apresentacao no Super Bowl, a maior audiencia da tv americana.

Por que, em determinadas situacoes, esquecemos nossa sindrome de vira-lata e amamos nossa origem? Por que pertencer é tao importante?

Porque pertencimento funciona como uma espécie de “tomada emocional” coletiva: quando o mundo acende um holofote sobre algo que é nosso, a energia simbólica encontra onde se ligar. E então o que antes era cotidiano vira insígnia.

Identidade nacional raramente é um estado permanente. Ela pulsa. Em tempos ordinários, o brasileiro convive com narrativas de carência, crise e comparação desfavorável. Mas em momentos de reconhecimento externo ou de celebração massiva, ocorre uma inversão de valência afetiva: o que era banal torna-se emblema, o que era motivo de autocrítica vira matéria-prima de orgulho. O pertencimento emerge quando a experiência individual encontra uma história coletiva que a valida.

Há também um mecanismo de espelhamento. Quando o Oscar aplaude um filme brasileiro ou quando Bad Bunny ocupa o centro do espetáculo mais assistido dos Estados Unidos, não estamos apenas vendo “eles” reconhecerem “nós”. Estamos assistindo a uma reorganização simbólica do mapa cultural, na qual o Sul deixa de ser periferia e passa a ser fonte. Esse deslocamento produz um efeito psicológico potente: reduz a distância entre quem somos e quem gostaríamos de ser. A identidade se alinha com o desejo.

Do ponto de vista do consumo simbólico, esses momentos funcionam como rituais de intensificação. Consumimos músicas, filmes, memes e discursos como quem veste uma camisa invisível. Não é só entretenimento, é inscrição social. No campo do design emocional, isso aparece como uma mudança de appraisal: o mesmo objeto cultural passa a ser avaliado com mais relevância, valor e proximidade. A emoção não está apenas na obra, mas no laço que ela permite tecer entre indivíduos dispersos.

Ser brasileiro e ser latino, nessas horas, deixam de ser categorias geográficas e tornam-se experiências partilhadas. A latinidade, tão diversa e por vezes fragmentada, ganha uma narrativa de potência comum: ritmo, mistura, invenção sob pressão histórica. Não é coincidência que a música lidere esse processo. O som atravessa fronteiras sem pedir passaporte e cria comunidades afetivas temporárias, mas intensas. Uma canção pode funcionar como uma praça pública portátil.

Também há uma dimensão política do pertencimento. Em contextos de tensão global sobre diversidade, imigração e fronteiras, afirmar orgulho de origem torna-se um gesto de afirmação simbólica. Não é apenas “gostar de onde se veio”, mas defender a legitimidade de existir como se é. O orgulho, então, opera como resposta à ameaça de invisibilidade.

Mas por que esse sentimento não permanece aceso o tempo todo? Porque pertencimento depende de reconhecimento, e reconhecimento é relacional. Precisamos de sinais, de rituais, de narrativas compartilhadas que renovem o vínculo. Sem esses marcadores, a identidade se dilui no cotidiano. Com eles, ganha contorno, textura, calor.

Talvez a pergunta não seja apenas por que valorizamos o pertencimento em certas situações, mas o que essas situações nos permitem experimentar: a rara sensação de que nossa história individual cabe dentro de uma história maior, e que essa história, por um instante, é celebrada em voz alta.

No fundo, pertencimento é menos um endereço fixo e mais um acontecimento. Ele acontece quando a cultura nos chama pelo nome e, por alguns momentos, respondemos em coro.