Quando viramos pais dos nossos pais

2/2/20262 min read

Talvez nunca estejamos preparados. Mesmo quando sabemos que vai acontecer, mesmo quando nada ali é exatamente inesperado. Em algum ponto da vida, muitos de nós nos vemos ocupando um lugar curioso e desconcertante: passamos a ser pais dos nossos próprios pais.

À primeira vista, isso não deveria nos abalar tanto. Afinal, cuidar faz parte da vida. Já cuidamos ou cuidamos dos nossos filhos. Então por que dói? Por que cansa? Por que irrita? A resposta não está apenas na rotina pesada ou na sobrecarga prática. Ela mora em um território mais silencioso: o da nossa história psíquica.

Quando nossos pais envelhecem, algo se rompe dentro de nós. Não é só o corpo deles que muda. É a imagem que sustentava nossa própria sensação de segurança no mundo. Aqueles que foram heróis, referências, autoridades ou até ausências marcantes começam a falhar, a esquecer, a depender. E isso nos confronta com uma perda simbólica profunda: a perda daquele olhar que nos confirmou quem éramos, daquela palavra que nos orientava, mesmo quando discordávamos dela.

Por isso a impaciência aparece. A teimosia deles nos irrita porque nos lembra da nossa própria fragilidade. A dificuldade com a tecnologia incomoda porque espelha o medo de também ficarmos para trás. As limitações físicas doem porque anunciam, sem pedir licença, o tempo passando para todos. Eles parecem adolescentes e, de repente, crianças. Uma espécie de Benjamin Button emocional que não queremos encontrar, porque esse papel não estava previsto no roteiro interno que construímos ao longo da vida.

Existe também algo pouco admitido: a raiva. Raiva de perder. Raiva de perceber que aquilo que já tivemos agora escapa. Raiva de ver que nossas referências vão se tornando memória, mais do que presença no cotidiano. Essa raiva não nos faz pessoas ruins. Ela fala do desamparo diante da finitude, da dificuldade de aceitar que ninguém permanece inteiro para sempre.

Muito se fala hoje da chamada “geração sanduíche”, espremida entre cuidar dos filhos e dos pais. A sobrecarga é real, mas o peso maior nem sempre está nas tarefas. Está no sentimento de abandono que não vem de alguém específico, mas da própria vida. Um abandono esperado, natural, e ainda assim nunca desejado.

Talvez o desafio esteja justamente aí: aprender a lidar com a frustração sem endurecer. Reconhecer nossos limites, nossas falhas, nossa impaciência, e ainda assim tentar oferecer carinho. Tornar-nos, mesmo que por instantes, os heróis daqueles que um dia foram os nossos. Não para ocupar o mesmo lugar, mas para sustentar o vínculo de outra forma.

Porque, gostemos ou não, nosso dia de Benjamin também chegará. E, no fundo, o que desejamos é simples: que aqueles que formamos consigam nos atravessar com respeito, cuidado e afeto. Talvez não exista preparo total. Mas existe a possibilidade de atravessar esse tempo com mais consciência, menos culpa e um pouco mais de humanidade.